Bastidores da vida de mestrandos e doutorandos

Nesta reta final de conclusão do meu doutorado tenho me deparado com um assunto que era pouquíssimo comentado sobre a vida de mestrandos e doutorandos: a saúde emocional!

É comum ver as angústias e as preocupações sendo divididas entre colegas mais próximos do mestrado e doutorado, mas a situação pode ser bem mais séria. Com a troca de informações possibilitadas pelas redes sociais o assunto tem ganhado força e merece realmente a nossa atenção.

A primeira notícia que li foi de um post de Marina Legrosk traduzido como O terrível custo sobre o qual ninguém fala de ter um doutorado  que eu copiei aqui embaixo:

Uma noite, no terceiro ano do meu doutorado, eu sentei na minha cama com um pacote de tranquilizantes e uma garrafa de vodka. Joguei algumas pílulas para dentro da boca e dei um golão na garrafa, sentindo tudo queimar na minha garganta. Momentos depois, eu percebi que estava cometendo um erro terrível. Eu parei, tremendo, enquanto eu me dava conta do que quase havia feito. Eu liguei para uma amiga e a encontrei num bar no meio do caminho entre as nossas casas. Aquela noite mudou as coisas para nós duas. Ela conheceu o amor da sua vida — o bartender, com quem se casou mais tarde. E eu decidi que eu queria viver. Na manhã seguinte, encontrei um terapeuta e considerei largar o doutorado.

Todos sabem que ter um doutorado é difícil. É pra ser. Alguns até dizem que se você não fica acordado à noite toda trabalhando ou não pula refeições, você está fazendo errado. Mas enquanto os alunos do doutorado não são tão ingênuos a ponto de esperar que isso seja um passeio, há um custo para essa empreitada sobre o qual ninguém fala: o psicológico.

Os dias que eu passei perseguindo meu doutorado em física foram dos meus piores. Não eram os desafios intelectuais ou a carga de trabalho que me deixavam pra baixo: era minha saúde mental deteriorando. Eu me sentia desamparada, isolada e à deriva em um mar de incertezas. Ataques de ansiedade se tornaram parte do meu dia a dia. Eu bebia e me cortava. Às vezes, eu pensava que queria morrer.

Eu poderia não ter me sentido tão sozinha se eu tivesse sabido quantas pessoas sofrem com questões de saúde mental na academia. Um estudo de 2015 da Universidade Berkeley da Califórnia descobriu que 47 % dos alunos de pós-graduação sofrem de depressão, seguindo um estudo anterior, de 2005, que mostrava que 10% cogitava suicídio. Um estudo australiano de 2003 descobriu que as taxas de doenças mentais no grupo acadêmico eram de três a quatro vezes maiores do que na população em geral, de acordo com um artigo da New Scientist. O mesmo artigo nota que a porcentagem de acadêmicos com doenças mentais no Reino Unido é estimada em 53%.

Mas a atitude durona que permeia a torre de marfim pode induzir muitas pessoas que sofrem com a saúde mental a deixar seus problemas escondidos, enquanto outros simplesmente aceitam a depressão como parte do percurso. E na cultura quase darwiniana entre estudantes de pós que competem por um punhado de vagas como professor universitário, muitas pessoas assumem que problemas psicológicos são só para os fracos.

“Eu achava — e torcia para — que apenas tomar uns antidepressivos e trabalhar mais pudesse ser o suficiente”, disse Jane*, uma doutoranda em biologia que foi diagnosticada com ansiedade e depressão. “E como as coisas não melhoraram rápido, isso ainda afetou o meu humor”.

Essencialmente, muitos alunos de doutorado estão tão acostumados a trabalhar duro e se autodisciplinar que eles se flagelam quando seus esforços para lidar com a depressão não produzem resultados perfeitos.

Um sentimento geral de isolamento pode, ainda, pesar mais em alunos de pós que passam muito do seu tempo enterrados sob uma pilha de livros, sozinhos, em laboratórios.

“As questões que afetam alunos em geral, que podem influenciar também nos alunos de doutorado, é viver e trabalhar independentemente”, diz Anoushka Bonwick, diretora de projetos e relacionamentos na Student Minds, entidade filantrópica britânica.

Igualmente estressante é o fato de os alunos do doutorado enfrentarem “incertezas sobre o futuro, como bolsa para a pesquisa e o que vão fazer depois do doutorado”.

Essas questões podem ser ainda mais impactantes em alunos que não possuem orientadores que os apoiam.

“Minha maior dificuldade era a sensação de ser largado à deriva”, diz Andrew*, ex aluno de doutorado em física que saiu do programa meses antes de terminar. “Eu não tinha um orientador envolvido ou que colocasse a mão na massa. ” Enquanto ele largou o programa em parte para trocar de lugar com seu colega, diz que “um orientador mais envolvido poderia ter mudado as coisas”.

Outros alunos de doutorado sofrem, com frequência, da síndrome do impostor. Isso foi parte do meu problema mesmo antes de sinais de uma doença mental séria terem começado a aparecer. Eu sentia que fui longe na carreira acadêmica por acaso e que as notas altas que eu tinha recebido na faculdade e no mestrado tinham sido um erro administrativo. Isso alimentou tanto minha ansiedade quanto minha depressão.

A síndrome do impostor é um problema frequente entre alunos com bom desempenho que se encontram rodeados de outros como eles, de acordo com Linda*, professora de sociologia de New Jersey. “É muito comum se sentir uma fraude incompetente, e geralmente você assume que é o único que se sente daquele jeito”, ela relata.

A frequência desses problemas não deveria assustar futuros alunos que querem conseguir um doutorado. Mas eles deveriam ser preparados a pensar sobre como eles vão lidar com os desafios psicológicos ao lado dos desafios intelectuais.

“Acho que primeiramente é muito importante procurar os serviços de apoio que a universidade oferece”, diz Bonwick. Isso pode significar qualquer coisa, desde aconselhamento da universidade até grupos de apoio de alunos.

Universidades e escolas estão também se esforçando para fazer mais para apoiar alunos de pós graduação. Organizações sem fins lucrativos para alunos como o Student Minds, no Reino Unido, e Active Minds e o programa de campus “Health Matters ” de Jed e Clinton, nos Estados Unidos, colaboram com instituições educacionais para alertar sobre assuntos de saúde mental entre os alunos, assim como para estabelecer uma rede de apoio.

Além dessas iniciativas, as universidades precisam fazer mais para treinar orientadores a reconhecer sinais de alerta de qualquer coisa, desde depressão em estágios iniciais e ansiedade a tendências suicidas e abuso de substâncias. E é necessário criar uma cultura de abertura que não apenas remova o estigma associado a problemas de saúde mental mas também que encoraje os alunos a procurar ajuda.

“A academia compreende, mas talvez aceite até demais, que todo mundo tenha problemas”, diz Jane. “Só porque muitas pessoas têm problemas de saúde mental, não quer dizer que seja ok ou ‘é assim que é’”.

Por fim, é importante que tanto os que querem ser quanto os que já são alunos de doutorado se confrontem diretamente com a frágil realidade do mercado de trabalho acadêmico e se planejem de acordo. Incertezas sobre o futuro podem ser um preço que os alunos tenham que pagar, mas eles têm menos chances de sofrer se as suas identidades não estiverem inteiramente ligadas à pós-graduação.

“Se você quer ser professor universitário, pense como a vida poderia ser se isso não acontecesse”, aconselha Linda. “O que mais poderia te fazer feliz? Almeje um balanço na vida, em que um mundo enriquecido por família, amigos e hobbies deem a sensação de completude que o trabalho pode não dar”. No meu caso, a terapia me ajudou a sobreviver e terminar o doutorado — e a planejar minha vida fora da academia antes mesmo de eu ter terminado a tese. Eu decidi me tornar uma escritora. Hoje em dia, eu raramente uso meu conhecimento em física. Mas ainda confio na força interior que desenvolvi durante meu tempo na pós-graduação, que me deu coragem para moldar minha própria vida.

* Os nomes foram trocados para preserver a privacidade dos entrevistados.

 

Outro relato bem parecido de uma brasileira é apresentado nessa reportagem da Veja São Paulo, que apresenta que muitos alunos de pós-graduação sricto sensu (mestrado e doutorado) enfrentam uma rotina de stress significativo determinado pelas múltiplas formas de pressão relativas ao seu desempenho. Esse stress resulta em diferentes formas de adoecimento, estando a depressão entre as mais comuns. Leia a matéria completa aqui.

Sobre este assunto e também sobre o desafio da escrita, a TV UFMG apresentou uma entrevista com o especialista em organização psicossocial e problemas psicológicos da escrita acadêmica, Robson Cruz, doutor em Psicologia pela UFMG e pós-doutor pela PUC-SP. Assista ao vídeo abaixo:

 

Claro que cada caso e pessoa tem a sua particularidade, mas não se pode desconsiderar a possibilidade de uma busca por ajuda profissional. Há uma tendência em se achar que a angústia é normal da fase, mas cada pessoa reage de um jeito e por isso não se pode menosprezar o estado de saúde. Falar sobre o assunto com colegas e orientadores é um bom início.

Agora que o assunto está se tornando público, espera-se que mais gente compreenda que há mais pedras do que parece neste caminho de mestrado e doutorado e ter o apoio de amigos e família é fundamental!

 

 

 

Sobre Cris Mendes

Professora universitária entusiasta das tecnologias para aprender e ensinar online. Doutora em Gestão & Organização do Conhecimento. Compartilha suas ideias, estudos e pensamentos nos blogs: https://crismnetto.wordpress.com e http://maiscursosonline.blog.br
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